Uma sombra

Perceber que se é só uma sombra de si mesmo é estranho. Principalmente quando a gente não consegue encontrar alternativas.

Quando penso que antes eu tinha mais tempo para passar com a minha família, tocava baixo constantemente, lia constantemente, escrevia todo dia e gravava podcast quase todo dia, eu vejo que a minha vida se tornou uma burocracia simples — e miraculosamente eficiente.

Não reclamo de ter um trabalho, de conseguir pagar as contas e de não ter um medo absurdo do que vai acontecer amanhã; seria ridículo pensar assim. Mas a verdade é que cada pessoa, sempre e inevitavelmente, vai olhar sempre pra si mesmo sem pensar tanto assim no mundo.

A tese de Schopenhauer de que "o consolo mais eficaz em toda infelicidade, em todo sofrimento, é observar os outros, que são ainda mais infelizes do que nós" (Schopenhauer, Parerga e Paralipomena, cap. XII, § 149) é só um paliativo. Somos, todos, tão insistentemente vaidosos que nem mesmo essa forma de apaziguar a insatisfação funciona o tempo todo.

Quero dizer pra mim mesmo às vezes que tudo vai mudar, que vai melhorar, que as coisas vão se resolver, que eu não vou mais ser esmagado pelo trabalho. Mas pra quê mesmo? Afinal, como escreve o mesmo Schopenhauer, a eudemonologia é só um eufemismo (Cf. Aforismos para a sabedoria de vida), o que devemos perseguir é uma vida "menos infeliz".

Pintura de Loribelle Spirovski