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O que Nietzsche pode ensinar aos debatedores da web

Nos dias de hoje - e especialmente na internet - vemos mais gente brigando, reclamando e discutindo do que propondo soluções ou ajudando a resolver problemas.

Pois é, “treta” é a palavra da ordem. E encontrar defeitos para apontar e estimular o ódio e a raiva contra os outros parece sempre ser mais edificante do que ajudar as pessoas a refletir e a rever seus pensamentos e posições.

Mas nesse mundo de “tretas” - da guerra pela guerra - acho que falta um pouco daquilo que Nietzsche chamou de “prática de guerra”.

Na sua autobiografia, Ecce Homo, Nietzsche escreveu que a sua atitude nos conflitos podia ser resumida em quatro partes:

“Primeira: eu ataco somente as coisas vitoriosas; (…) Segunda: ataco somente as coisas para as quais não poderia encontrar companheiros, onde estou só, onde sou o único a comprometer-me. (…) Terceira: não ataco nunca as pessoas. (…) Quarta: eu ataco somente as coisas das quais se exclui qualquer antipatia pessoal (…)”

Nietzsche, o superhomem Para Nietzsche, atacar as ideias de alguém era uma forma de benevolência, uma distinção, um sinal de honra e respeito pelo outro. Nietzsche não atacou Richard Wagner, por exemplo, por odiá-lo, mas porque enxergava em Wagner um modelo de cultura que precisava ser discutido e repensado. Esse ataque era, então, um sinal de reconhecimento pela sua influência, ao mesmo tempo em que era um esforço de legar para a humanidade o presente de um futuro diferente e melhor.

Os blogueiros e podcasters das tretas atuais poderiam pelo menos ter esse sentido da batalha: não se luta apenas para destruir, mas sim para alcançar algo que acreditamos. Mas destruir por destruir é certamente mais divertido - e irresponsável - do que se esforçar para produzir pesquisa, conhecimento e ideias novas.

Marcos Ramon

Marcos Ramon

Professor no Instituto Federal de Brasília, pesquisando ensino, estética e cibercultura. Lattes | ORCID | Arquivo
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