Marcos Ramon

O que a gente aprende com a dor?


Ninguém quer sentir dor, ninguém quer se sentir limitado em suas ações e impedido de realizar tarefas simples do dia a dia. Mas quem sente dor, dependendo da dor, vive exatamente isso.

Na semana passada convivi com uma dor chata - que já está indo embora, ainda bem! - e tentei entender o que eu poderia tirar de aprendizado de uma semana em que eu sabia que tinha hora certa pra me desesperar. E olha que a dor que eu senti talvez nem tenha sido das piores! Mas a nossa dor é sempre muita, é sempre insuportável, é sempre um transtorno…

Na quarta-feira, não aguentando mais trocar de analgésico por conta própria, fui a um pronto socorro e a médica que me atendeu - a pior médica do mundo, diga-se de passagem - nem quis me examinar. Bem ela me achou com cara de dissimulado, de quem tava só querendo matar o trabalho no meio da tarde. Mas me passou um analgésico que ela disse que era muito, muito forte, e que eu devia marcar um especialista pra investigar a causa da dor de cabeça.

No outro dia quando a dor voltou mais forte do que nunca e o remédio super forte não fez efeito nenhum, eu pensei: o que eu posso fazer agora? Vou ter simplesmente que conviver com essa dor e pronto?

Consegui marcar consulta de emergência com um otorrinolaringologista pro dia seguinte, ele identificou o problema (sinusite), me passou uma medicação adequada e agora eu já estou muito bem. Mas a dor que eu sentia, essa dor que era minha mesmo que eu não a quisesse, me ensinou uma coisa: não posso esquecer o que eu sou.

Quando a dor vinha eu tentava combatê-la procurando um meio de tirar de mim aquilo que estava sentindo, como se simplesmente se tratasse de algo que não tinha a ver comigo. Mas a verdade é que eu não queria entender o que era aquela dor, nem como ela começou. Só o que me interessava é que ela fosse embora. Talvez por isso a pior-médica-do-mundo não tenha se esforçado em diagnosticar nada. Ela deve saber que a maioria das pessoas só quer o mesmo que eu: o alívio da dor. “Então pegue essa receita, compre o remédio mais forte que eu posso te receitar e pare de sentir o que te incomoda.”

Percebi também que a dor nos torna egocêntricos. Tudo gira em torno da gente e parece que só o que a gente sente importa. Pensando sobre isso agora lembro do episódio de Friends em que a Rachel está tendo sua filha. No meio do parto Ross bate a cabeça e diz que está sentindo a pior dor do mundo. Diante de uma mulher que está parindo ELE estava tendo a pior dor do mundo por bater a cabeça.

É isso que a dor faz com a gente: ela faz a gente se sentir o centro do mundo, algo que lá no fundo nós sentimos o tempo todo, ainda que não aceitemos admitir.

Aprendi com a dor que ela é capaz de igualar todas as pessoas, mostrando o melhor e o pior que nós temos. E nem sempre a gente está preparado pra ver como a gente realmente é.

http://sebastiaanbremer.com/ Pintura sobre foto de Sebastiaan Bremer.

Marcos Ramon

Marcos Ramon

Professor no Instituto Federal de Brasília, pesquisando ensino, estética e cibercultura. Lattes | ORCID | Arquivo
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Marcos Ramon / Professor de Filosofia, pesquisando estética e cibercultura.

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