Marcos Ramon

Cansaço


Se sentir cansado é algo completamente subjetivo.

Algumas pessoas sentem o passar dos dias e as tarefas que devem realizar como um peso terrível, enquanto outras conseguem subatrair a maior parte dos transtornos superando a rotina como se ela nem estivesse ali.

É mais ou menos como a nossa percepção do tempo, que varia de acordo com nosso humor, nossa perspectiva de vida e interesses. Afinal, meia hora em uma fila de banco não é a mesma coisa que meia hora conversando com alguém que você admira. Mas no cansaço tem algo mais, algo incontrolável e indecifrável, apesar de ser exatamente o que nós somos: o nosso corpo. Quando estamos cansados é também porque fisicamente algo acontece e nos manda parar. Tem gente que fica cansado de tanto dormir - o que aparentemente não faz sentido - e tem gente que não quer ter que descansar e reclama do próprio corpo que não aguenta o tranco de uma vida a mil por hora.

Antes da revolução industrial nossos corpos, interesses e rotinas eram, provavelmente, tão diversos e inconstantes quanto as pessoas, mas hoje passamos basicamente pelas mesmas experiências sociais e culturais. Ficamos muito tempo na escola sentados todos iguais enquanto copiamos coisas, em casa nos encontramos muito tempo parados assistindo televisão, ficamos em pé no ônibus esperando nosso lugar de descer, deitamos pra dormir esperando a hora certa de acordar.

Num mundo tão padronizado assim até o cansaço se tornou coletivo e coordenado. Felizes os que se cansam sem hora marcada e vivem a vida do jeito que ela manda. Deve ter gente assim, né? Ou não?

Cansaço

Marcos Ramon

Marcos Ramon

Professor no Instituto Federal de Brasília, pesquisando ensino, estética e cibercultura. Lattes | ORCID | Arquivo
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Marcos Ramon / Professor de Filosofia, pesquisando estética e cibercultura.

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