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Por que temos tanto medo da diferença?

Certamente você já percebeu isso: todos os dias mais e mais pessoas se tornam mais raivosas, irritadas e se incomodam facilmente com o fato de existirem pessoas que pensam de outro jeito, se vestem de outro jeito ou tem preferências sexuais e religiosas diferentes das que “todo mundo deveria ter”.

Dia desses, em uma aula de ética, deixamos de falar sobre Platão pra debater os protestos, as insatisfações políticas e as novelas da tv. Tudo isso é tema importante e válido pra uma aula de ética. Mas considerando o rumo que o debate tomou eu preferia ter ficado com Platão, discutindo o valor da virtude e as incoerências de uma experiência democrática que a gente nunca conheceu.

A questão é que, quando muito, a maior parte das pessoas se utiliza do argumento da tolerância, mas se esquecem de pensar sobre o que realmente muda na vida de cada um quando os outros são diferentes da gente. Na minha opinião? Pouquíssima coisa.

A diferença é importante e necessária. Viver em um mundo em que todo mundo é uma cópia de um ideário coletivo, não. É essencial que a gente tenha uma forma particular de ver a política, de se relacionar com os produtos culturais e encarar os problemas da vida. Afinal, cada um tem sua própria vida e história. E as pedras no seu sapato não são necessariamente as mesmas que estão no meu, concorda?

Mas sendo assim, por que tanto ódio contra os outros, contra as conquistas alheias, contra a privacidade de cada um? Eu, sendo professor de Filosofia, sou tratado às vezes pelos estudantes como alguém que devia saber das coisas (e eles me perguntam cada coisa, você nem acredita). Sobre história da filosofia, lego, nintendo e literatura eu me orgulho de dizer que sei algumas coisas. Mas sobre o essencial, que é saber como conviver com os outros, eu não sei quase nada. E meus alunos sempre reclamam quando eu não sei fazer a análise “certa” da falta de moralismo da novela (existe isso?) ou da cobertura nada imparcial da mídia sobre os protestos. Eu tenho minhas opiniões, mas se elas são diferentes das de alguém - e sempre tem alguém que pensa diferente, óbvio - então é porque eu não sei de nada.

Mas professor, como assim o senhor defende que a gente tem que pensar diferente. Cadê a verdade verdadeira?

Eu não tenho a menor ideia. E você, tem?

Foto de Masato Sudo

Marcos Ramon

Marcos Ramon

Professor no Instituto Federal de Brasília, pesquisando ensino, estética e cibercultura. Lattes | ORCID | Arquivo
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