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Uma vida sem reflexão

De acordo com Platão, Sócrates era da opinião de que uma vida sem reflexão não merecia ser vivida. Apesar da beleza desse tipo de proposta, a maior parte das pessoas de fato vivem sem refletir sobre a própria existência. Além disso, é bem provável que dentre esses, muitos ainda defendam que não refletir é o melhor que se pode fazer para viver bem.

Nem todos possuem as mesmas oportunidades na vida. Enquanto alguns têm acesso a uma educação consistente, a maioria da população depende quase que exclusivamente da mídia para “entender” a realidade a sua volta. Em um contexto como esse, fica difícil exigir das pessoas que elas se comprometam com o pensamento livre e com as diferentes maneiras de se relacionar uns com os outros. A ausência de reflexão, assim, se torna um conforto. E o entretenimento constante se mostra como uma possibilidade de respiro diante da agonia da liberdade1.

Não consigo imaginar a minha própria vida sem a reflexão, a angústia e o comprometimento que quero ter com as minhas ideias, medos e frustrações. Mas sendo um professor que discute essas ideias em sala de aula, eu percebo como cada vez menos pessoas estão dispostas a ouvir e a se deixar encantar com esse tipo de discurso romântico e carregado de utopia. Vivemos em um mundo em que quase nada é mistério e onde a magia não dura mais do que o tempo de um filme. Quem quer se dedicar a refletir em um mundo assim?

Colagem criada por Marcos Martínez

  1. A Ética platônica (e socrática, já que é tão difícil separar os dois nesse ponto) afirma que a virtude é, junto com a reflexão, uma condição para a felicidade. Se eles estiverem certos, não é difícil porque a vida nos dias atuais é tão plena de coisas e oportunidades, e ainda tão vazia de sentido. 

Marcos Ramon

Marcos Ramon

Professor no Instituto Federal de Brasília, pesquisando ensino, estética e cibercultura. Lattes | ORCID | Arquivo
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