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Só coincidência

Eu gostaria de acreditar que a minha falta de vontade para fazer as coisas que eu preciso e quero fazer, é apenas uma circunstância. Eu queria acreditar também que o poço não seca e que a gente pode ser sempre criativo, interessante e interessado em tudo o que nos cerca. Mas eu sei, para o bem e para o mal, que não é assim.

Quanto mais o tempo passa, mais me persegue uma sensação de que eu perdi o momento das coisas. De que o que poderia ter sido realizado já passou e o que me resta agora é só uma sombra de oportunidade. Isso, só para esclarecer, não implica em desistir de qualquer coisa, porque se depender só de vontade eu vou viver muito. A questão então é outra: se eu conseguir viver muito, eu vou viver como?

Epicuro escreveu que a gente não deve temer a morte, porque quando ela existe somos nós quem não existimos mais. Mas esse desencontro não me conforta. Tenho muito medo de morrer, e não só da morte permanente, mas de todas as pequenas mortes que nos acompanham quando vamos envelhecendo e perdendo a memória, os cabelos, o ímpeto de confiar que tudo só melhora.

Quando eu penso nessas coisas esqueço que podia ser mais simples viver sem perguntar. Mas o fato da gente não conseguir viver sem querer uma resposta pras coisas deve ter um propósito. Não pode ser só coincidência a gente ser assim, querendo saber até sobre o nada. Ou talvez isso seja apenas eu querendo me enganar, fingindo que existe propósito em tudo, mesmo sabendo que o autoengano não é o melhor dos caminhos.

Marcos Ramon

Marcos Ramon

Professor no Instituto Federal de Brasília, pesquisando ensino, estética e cibercultura. Lattes | ORCID | Arquivo
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