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O tempo

Eu acho que de todas as coisas sobre as quais eu penso (e escrevo) a mais constante e urgente pra mim é o tempo. Se por um lado isso me faz ser monotemático, por outro me coloca em uma situação de poder olhar com cuidado para as minhas próprias ideias e convicções.

A minha obsessão pelo tempo, eu creio, vem do fato de que eu sempre me senti deslocado da minha época e das coisas que estão próximas a mim. Não sei se esse é um sentimento comum a todo mundo (me diz aí se você também sente isso), mas eu vivo em uma eterna nostalgia, das coisas que eu vivi, experimentei e sofri; mas também de tudo aquilo que eu não conheci. E nesse saudosismo estranho, vez ou outra me deparo com algo que me espanta. Por exemplo, dia desses vi um post no Buzzfeed que mostra alguns fatos que podiam bagunçar nossa percepção do tempo. Uma das coisas que aparecem lá é o seguinte: “Se criassem um “That ’90s Show” após o mesmo intervalo que o “That ’70s Show” esperou após os anos 70, o programa iria ao ar em 2017”.

Isso realmente me assustou. Eu era adolescente na década de 1990 e tinha já um saudosismo maluco dos anos 1970, principalmente por causa da música. Afinal, as primeiras bandas que eu comecei a admirar foram bandas que fizeram sucesso nos anos 70 (Led Zeppelin, Pink Floyd, Rush etc). Daí fiquei pensando sobre o quanto que eu sinto falta dos anos 90 — e, sim, eu sinto falta de muita coisa, mas não imaginava que já tinha passado tanto tempo assim. Na minha cabeça ainda acho que música antiga é dos 70, do mesmo jeito que pensava quando tinha 17 anos. Fiquei tão encucado com isso que sentei com a minha esposa e montamos juntos uma playlist com as músicas que ouvíamos nos anos 90. Você pode ouvir a nossa playlist no Spotify, se quiser. O curioso é que a gente não se conhecia na época, mas conseguimos compartilhar lembranças daqueles anos por causa das músicas que ouvíamos. Ela me dizia o que tal música lembrava ela e eu, pensando nas minhas próprias experiências, quase conseguia lembrar daquilo também. Estranho, né? A memória não é só um fato que ficou no passado, mas pode ser algo inventado, imaginado — e isso não faz com tudo seja menos real.

Mas se é assim, o que então nos separa do passado? Nós mesmos, eu acho.

Marcos Ramon

Marcos Ramon

Professor no Instituto Federal de Brasília, pesquisando ensino, estética e cibercultura. Lattes | ORCID | Arquivo
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