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O som da rua

Eu moro em um prédio que fica colado em uma avenida. Acordo muito cedo todo dia e fico observando o som crescendo, os carros, ônibus, pássaros, as pessoas conversando passando pela calçada, fazendo exercício, indo pro supermercado.

E chega um momento em que tudo é tão intenso, e tão constante, que já é um som aqui de dentro, que faz parte da sala. Fazer yoga, escrever, planejar minhas aulas ou escutar música, são atividades que precisam se conciliar com tudo o que acontece lá fora.

Esse aqui é o som da rua em um sábado (quando tudo está um pouco mais calmo), às 18h:

Marcos Ramon · O som da rua

No áudio acima eu saio do quarto e vou para a sala, e todo o som da rua toma conta do quase silêncio de antes. Os carros e motos na rua, as crianças brincando, uma pessoa jogando basquete. É muito. Tudo acontecendo, crescendo. E na maior parte do tempo eu nem percebo.

John Cage, falando sobre 4’33’’, disse que “o silêncio não existe”. Perto do fim da vida ele se mudou junto com Cunningham para um apartamento de último andar, em uma avenida movimentada de Nova York. Um lugar barulhento, em que ficava evidente que o silêncio realmente não podia existir. Em uma entrevista já no fim da vida, Cage disse sobre esse lugar:

“Eu não poderia estar mais feliz do que estou neste apartamento, com os sons da Sexta Avenida que me surpreendem constantemente, que nunca se repetem”. John Cage

De um jeito estranho, acho bonito isso. Pensar que a realidade que nos cerca oferece um material infinito de transformação constante. Às vezes, é só barulho, e esse som da rua muitas vezes dói; porque incomoda, atrapalha e tira o foco do que você gostaria de perceber. Ficamos sem escolha pelo silêncio (ou, o mais próximo dele). Mas pode ser também motivo para reflexão. Se a gente se deixa apenas existir, vamos lidar sempre com o mundo lá fora que invade a nossa sala e, no final, até a nossa cabeça. Ninguém, por escolha própria, iria dar espaço na vida para ouvir esses sons que não servem pra nada. Talvez por isso eles sejam tão impositivos, tão onipresentes.

Marcos Ramon

Marcos Ramon

Professor no Instituto Federal de Brasília, pesquisando ensino, estética e cibercultura. Lattes | ORCID | Arquivo
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