O desafio de ensinar

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Por algum tempo se supôs que o valor intrínseco às instituições de ensino tinha relação com o fato de que, nesse espaço, se poderia ter acesso a algo difícil de se alcançar do lado de fora. Professores eram pessoas eruditas que detinham experiência e conhecimento suficientes para apresentar aos estudantes informações e discutir a composição do conhecimento acumulado historicamente. Tudo isso ainda é verdade, com a diferença de que muitos estudantes deixaram de acreditar nessas instituições e em seus professores.

Em sala de aula sempre houve quem contestasse o valor da autoridade do conhecimento docente — isso, por si só, não representa novidade alguma. O que há de novo, contudo, é o fato de que agora grande parte dos estudantes entende que o conhecimento ou não é importante ou pode ser contestado por contraste com a opinião. Platão afirmava que o perigo da democracia era justamente se tornar o reino da opinião, um ambiente em que os philodoxos transformassem o mundo em tirania, submetendo os raciocínios às suas perspectivas particulares. Mas hoje, se eu apresentar esse argumento em uma aula, rapidamente muitos estudantes que nunca leram Platão contestarão a tese do filósofo grego julgando que eles possuem argumentos melhores. Quais argumentos? Suas próprias opiniões, fruto de suas experiências de vida e observações. E mais, eles não terão dúvidas de que isso é melhor (ou pelo menos tão bom) quanto qualquer coisa que algum cientista, filósofo ou poeta já disse. Afinal, e eu já ouvi um estudante afirmar isso em sala de aula, “no mundo de hoje todas as ideias se equivalem”.

Não vou ser injusto aqui. Ainda existe muita gente que possui respeito pelo conhecimento. E quando digo “respeito”, quero dizer que escutam com atenção e tentam compreender antes de criticar. Ou seja, não são submissos à verdade estabelecida, mas entendem que é preciso uma etapa de apreensão do conhecimento para se passar à contestação. Por outro lado, já não tenho certeza se essa é a postura da maioria, e é isso o que mais assusta. Colocar em dúvida o valor do conhecimento, da filosofia, da ciência, da experiência artística e considerar que esses campos do saber estão no mesmo nível da opinião comum é algo agressivo e perigoso.

Por isso, ensinar qualquer coisa hoje é um desafio gigantesco. Não pela dificuldade em se fazer entender, mas pela resistência que as pessoas têm àquilo que foi produzido por outros. Se o desenvolvimento cognitivo é aquilo que nos distingue de todos os outros animais (para o bem e para o mal), quando abandonamos a crença no saber, desistimos também de nós mesmos. E não é razoável imaginar que esse é o melhor caminho para seguir.

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