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Não é só um jogo

O futebol não é só um jogo, mas uma representação da ambiguidade moral humana.

A seleção brasileira venceu seu primeiro jogo na copa do mundo de 2014 com a ajuda de um gol marcado em um pênalti que não existiu. Quando acabou o jogo toda a responsabilidade pelo lance recaiu sobre o juiz, enquanto o jogador que cavou o pênalti chegou até mesmo a ser exaltado pelo que conseguiu. Alguns comentaristas na tevê diziam que o Fred não jogou nada, mas pelo menos soube usar a experiência para ajudar a seleção. Até mesmo o técnico da Croácia - que afirmou que a marcação do pênalti foi ridícula - isentou o atacante da responsabilidade. De acordo com ele, o que Fred fez é algo que todos os jogadores fazem.

Quando dou aula de ética eu sempre começo a disciplina afirmando que o estudo da ética não torna ninguém ético. E os estudantes, se sentindo enganados, sempre me perguntam: “então pra quê estudar isso?”. Uma resposta possível é: para compreender esse aspecto contraditório da humanidade em relação à moral.

Quando termina um jogo como o de ontem não se vê as pessoas chamando o jogador que simulou ter sofrido uma falta de corrupto ou de mau exemplo. E nem é realmente o caso. Afinal, ali, dentro do campo, se admite que a moral tem outro sentido. E ser dissimulado é, na verdade, lutar por seus objetivos, usar a “experiência” a favor do seu time. Lembre: o jogador é um ser humano, e seres humanos não possuem um senso moral objetivo que seguem à risca sem nenhum desvio. O jogador que finge ter sofrido um pênalti deveria ser considerado corrupto, mas na ética do futebol ele é apenas um jogador que soube ser esperto.

Mas o juiz não. Esse não pode errar. Esse não pode ser considerado um ser humano capaz de ceder à pressão de 61 mil pessoas pedindo um pênalti para o time da casa. O juiz é ladrão, corrupto, vendido e deve ser banido do futebol! E assim nós julgamos esse indivíduo da mesma forma como julgamos muitas outras pessoas em circunstâncias diversas da vida cotidiana, com dois pesos e duas medidas.

Estão vendo, não é só um jogo. É a melhor representação do que nós somos.

Marcos Ramon

Marcos Ramon

Professor no Instituto Federal de Brasília, pesquisando ensino, estética e cibercultura. Lattes | ORCID | Arquivo
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