Marcos Ramon Info

Ler menos

(…) quem sempre anda a cavalo acaba esquecendo como se anda a pé. Este (…) é o caso de muitos eruditos: leram até ficar estúpidos. (Schopenhauer. Sobre livros e leitura)

Schopenhauer escreveu sobre a leitura em Parerga e Paralipomena (1851), um livro com pequenos textos, sobre os mais diversos assuntos e que ganhou o gosto da burguesia europeia em ascensão. Essa burguesia procurava um filósofo pra chamar de seu e como Kant e Hegel estavam para além da compreensão ou, pelo menos, não valiam tanto assim o esforço, Schopenhauer acabou ganhando esse espaço. Mas as indicações de Schopenhauer nesse e nos outros textos publicados por ele sobre o tema 1 parecem, num primeiro momento, desvalorizar o próprio autor. Uma das indicações de Schopenhauer é que se leia pouco e se releia mais. Além disso, é extremamente recomendado que se evite os autores novos e se dedique tempo aos clássicos. Sendo assim, Schopenhauer, um autor de sua época, não seria o alvo exato de suas próprias críticas?:

Os ruins nunca lemos de menos e os bons nunca relemos demais. Os livros ruins são veneno intelectual: eles estragam o espírito. Para ler o bom uma condição é não ler o ruim: porque a vida é curta e o tempo e a energia escassos. (Schopenhauer. Sobre livros e leitura)

Vale lembrar que Schopenhauer sabia 2 que seria um clássico, que estava predestinado a ser célebre. Por isso sua obra não estava do lado do lixo cotidiano que ele tanto criticava. Deixando pra outro momento a análise da soberba e da pouca modéstia de Schopenhauer, acho que dá pra fazer aqui um interessante paralelo entre a situação da leitura apresentada por ele e o uso recente das tecnologias digitais.

Estamos cercados por produtos culturais, dados e informações. Tuítes, artigos em blogs, memes, virais e links no Facebook fazem, muitas vezes, mais parte do cotidiano de algumas pessoas do que outras pessoas. Estamos conectados o tempo todo 3 e nunca lemos tanto, nunca vimos tanto, como nessa época de onipresença da internet (ou onipresença nossa na internet). Não será então o momento de lermos menos, vermos menos?

A análise de Schopenhauer se volta para a relação conteúdo-tempo-reflexão. É bom ter algo interessante em mãos, mas é também importante possuir tempo disponível para ler (reler) e refletir sobre aquilo com cuidado, deixando ainda tempo para que os pensamentos próprios possam se desenvolver.

Esperar que alguém tenha retido tudo que já leu é como esperar que carregue consigo tudo o que já comeu. (Schopenhauer. Sobre livros e leitura)

Atualizando a discussão: de nada interessa possuir acesso a um bilhão de coisas diferentes e legais na internet se não possuímos tempo para aproveitar tudo isso com cuidado. É preciso hoje, antes de qualquer coisa, tomarmos a decisão de selecionar o que nos serve e de que forma. Não temos que ver todos as coisas que todo mundo vê na internet, nem perder 5 horas vendo mais do mesmo como se não houvesse amanhã. Na verdade, se não existir amanhã devemos fazer justamente o contrário: aproveitar melhor nosso tempo.

Schopenhauer - o ranzinza Schopenhauer - se fosse teletransportado para o século XXI, seria certamente um polemista dos mais chatos da internet. Mas ele não ia aguentar muito e ia logo cancelar a conta dele no Twitter e depois no Facebook (se deixassem). Seu último tuíte seria algo assim:

Como as pessoas leem sempre em vez do melhor de todos os tempos, o mais recente, os autores permanecem na esfera estreita das ideias circulantes, e o século se enterra cada vez mais profundamente nos seus próprios excrementos. (Schopenhauer. Sobre livros e leitura)

Dá pra não concordar?

  1. A editora L&PM publicou uma coletânea com os textos de Parerga e Paralipomema que abordam o tema da leitura e dos leitores. 

  2. Ele deixou muitos textos em que fazia reflexões sobre o seu destino intelectual. 

  3. Naturalmente não estou me referindo às centenas de milhares de pessoas que não acessam a internet e que possuem problemas bem mais vitais para resolver do que decidir se devem curtir ou compartilhar uma publicação. Me refiro aqui ao grupo restrito de pessoas que acessa a internet regularmente, gente como eu e você. 

Marcos Ramon

Marcos Ramon

Professor no Instituto Federal de Brasília, pesquisando ensino, estética e cibercultura. Lattes | ORCID | Arquivo
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