Marcos Ramon Info

Conhecimento rápido

Quando eu estava na graduação eu lembro que meus professores odiavam aqueles livros de divulgação filosófica e científica, coisas como “Foucault em 90 minutos” ou “Einstein para Principiantes”. Eu, particularmente, nunca vi problemas nesses livros. Acho apenas que como livros de divulgação alguns são mais bem sucedidos do que outros em suas tarefas de apresentar autores, temas e propostas, o que considero algo importante se levado a sério.

De qualquer forma, entendo o argumento que meus professores defendiam, apesar de não concordar com ele na íntegra. O que eles buscavam dizer é que nem todo tipo de conhecimento é para todo mundo e simplificar demais as coisas é só uma forma que alguns autores encontraram de ganhar mais dinheiro com publicações rápidas e pouco relevantes, algo como um fast food de conhecimento. Conhecimento é difícil, exige tempo, dedicação e talvez não seja para você. Estudar filosofia ou física teórica como pílulas de sabedoria de auto-ajuda não contribui para o desenvolvimento dessas áreas, mas faz o efeito exatamente oposto, levando os autores a se sentirem mais e mais obrigados a escreverem para um grande público de não especialistas. Afinal, todo autor quer escrever o seu best-seller e assim o número de leitores e escritores aumenta na mesma proporção em que os trabalhos acadêmicos relevantes diminuem.

Pois bem, hoje vi na rua uma pessoa segurando um livro chamado “A bíblia em 100 minutos”, algo que nunca tinha visto. De primeira pensei: “tá, mas que mal pode ter…” Mas pensando melhor agora acho que tem um mal terrível sim. Se cada fanático religioso que existe no mundo decidir escrever o seu próprio guia de leitura de um livro “sagrado” para leitores fast food, daqui a pouco ninguém vai ler os textos religiosos originais (não estou dizendo “verídicos”), o que nos colocará cada vez mais distantes da possibilidade de termos pessoas esclarecidas para entenderem que nem tudo que está escrito em um livro “sagrado” é de fato sagrado e deve ser seguido ao pé da letra.

Livros de divulgação filosófica e científica podem ser pouco úteis, mas livros de divulgação religiosa são potencialmente nocivos. Espero que essa moda acabe.

Marcos Ramon

Marcos Ramon

Professor no Instituto Federal de Brasília, pesquisando ensino, estética e cibercultura. Lattes | ORCID | Arquivo
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