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Eu tenho uma desconfiança. Mas uma desconfiança boa, não se assuste.

É o seguinte: mesmo nos isolando de maneira propositada e aparentemente crentes de que estamos isentos dos problemas que vivenciamos e da responsabilidade de vivermos da maneira como vivemos, desconfio que lá no fundo todo e qualquer ser humano sente que estamos conectados, integrados, vivendo os mesmos sonhos, compartilhando as mesmas angústias, lutando, esbravejando, desistindo… Enfim, sendo parte do mundo que somos.

Mas e as pessoas estúpidas que insistem em estragar a vida alheia? E os haters, as pessoas “sem noção”, os canalhas e os ignorantes? Também estão conectados, sentindo que possuem um propósito comum em estarem vivos?

Então, eu acredito que sim. Mas veja, eu não disse que cada um tem certeza ou convicção disso, eu disse que desconfio que cada pessoa sente isso. Mas o problema é que a gente não dá muito atenção pro que sentimos, a gente prefere pensar. E aqui eu sou amigo de Alberto Caeiro:

Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender…
(O guardador de rebanhos)

Acho que é isso. Sentimos que somos um, parte de um mesmo mundo, sintomas dos mesmos problemas e solução deles. Mas pensamos demais, racionalizamos demais, e acabamos deixando de lado essa intuição forte e poderosa que nos diz que viver em sociedade é simples, que sentir compaixão não é uma utopia, que olhar pro outro é também se reconhecer a cada momento…

Espero que a gente supere esse ideal de razão, controle e medida, que condiciona a nossa vida já há tanto tempo. Se existe um futuro pra gente, esse futuro tem a ver com isso: aceitar nossos sentidos, viver nossa materialidade, entender a nossa natureza.

Marcos Ramon

Marcos Ramon

Professor no Instituto Federal de Brasília, pesquisando ensino, estética e cibercultura. Lattes | ORCID | Arquivo
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