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Através de mim

Uma das piores coisas de ser professor — e, infelizmente, ainda existe muita coisa ruim na profissão — é a sensação de perceber que os estudantes não estão ali. Fisicamente, óbvio, estão. Mas fazendo outra coisa, que não tem nada a ver com a aula. Conversando, lendo material de outra disciplina, dormindo, olhando através de você. Nesses momentos, ao perceber isso, eu sempre me sinto ridículo.

Quem trabalha com sala de aula costuma, nesses momentos, se iludir dizendo pra si mesmo: eu dou aula para os que querem. Tem gente que sabe aproveitar.

Verdade. E mentira.

Verdade porque sempre tem alguém que quer aula. Mesmo nos meus piores dias eu nunca acreditei que realmente estava falando pra ninguém. Mas mentira porque só isso não basta. Porque a questão não é quantos estão dando atenção para o que você diz, mas sim a sensação de ridículo de sentir que, muitas vezes, o que você faz não tem sentido nenhum, que não importa.

Na maior parte do tempo, em relação ao meu trabalho, o que sinto é um desgosto profundo por estar desperdiçando parte do que eu sou em uma tarefa que não sei se vale alguma coisa. Mas no fundo eu sei que isso não é verdade. Por isso, a docência é tão ambígua, e até terrível. Às vezes você acha que pode fazer e criar coisas importantes, gerar empatia, conectar pessoas. Mas na maior parte do tempo está apenas lutando com os medos e vontades.

Mas sim, existem coisas boas na docência; e eu respeito e valorizo o meu trabalho. Por isso, vou continuar fazendo o que eu faço da melhor forma possível, entregando o melhor que eu puder. Mas as coisas piores impactam mais. O pessimismo, escreveu Schopenhauer, protege a gente contra a inocente crença de que existe felicidade plena, de que as coisas podem ser absolutamente boas. E é só isso que ainda me faz olhar pra sala de aula com alguma esperança. Não tem nenhuma aula realmente perfeita, então as minhas também não são tão ruins assim. Mesmo eu falando pra ninguém. Mesmo as pessoas olhando através de mim.

Pixel art, por scribbles pixels

Marcos Ramon

Marcos Ramon

Professor no Instituto Federal de Brasília, pesquisando ensino, estética e cibercultura. Lattes | ORCID | Arquivo
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