A vaidade compartilhada

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E depois de uns 100 anos eu voltei a frequentar uma academia…

Em uma academia de ginástica, você sabe, a vaidade é a divindade maior. Algumas pessoas prestam cultos a divindades menos relevantes, como a saúde ou o condicionamento físico, mas ninguém ousaria negar que o maiores e mais intensos sacrifícios que ocorrem nos altares das academias se dão para a absoluta e onipresente vaidade.

Isso fica claro quando se observa cada pessoa naquele ambiente se enamorando nos espelhos da academia enquanto fazem pose com os halteres. Isso não é algo que começou a acontecer hoje e nem é surpresa pra ninguém. Simplesmente é assim. E claro que não esperava encontrar outra coisa depois de tanto tempo longe de uma academia.

Mas uma coisa mudou desde a última vez que eu tinha pisado em uma academia: agora os smartphones são onipresentes. E como eles fazem a diferença!

A pessoa faz um exercício. Para. Posiciona o smartphone. Tira uma foto. Toma água. Volta pro exercício. Força, força, força. Para. Pega o smartphone. Tira outra foto. Posta em algum aplicativo ou envia para alguém. Volta pro exercício. Força, força, força. Para. Chama um conhecido que está malhando bem ao lado. Pede pra tirar uma foto enquanto faz a próxima rodada de exercícios. E assim até o fim.

Não é todo mundo que faz isso, óbvio. A maioria ainda se contenta com o bom e velho espelho e com os olhares de inveja dos ainda não sarados. Mas a onipresença dos smartphones já contaminou muita gente com o que vou chamar aqui de vaidade compartilhada.

A coisa é tão séria que eu desconfio, por exemplo, que muita gente contrata um personal trainer pra resolver dois problemas:

  1. Ajudar a pessoa realizar os exercícios da forma correta e orientar em outras coisas relacionadas ao treino;
  2. Tirar fotos.

A vaidade é um sentimento bem mais comum que se imagina. E até quem não quer aceitar que é vaidoso, certamente é. Talvez não em relação às mesmas coisas que os outros que você considera muito vaidosos, talvez não com a mesma intensidade. Mas a vaidade sempre está lá, te rodando, esperando você ceder.

A vaidade é uma divindade oferecida, mas que exige publicidade e amor irrestrito. Mas no mundo de hoje, com as tecnologias que possuímos, não é tão difícil ofertar o que ela merece e na intensidade que ela deseja.

E para comprovar o que eu disse você nem precisa ir a uma academia, basta ver as oferendas disponibilizadas no altar.

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