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A realidade se impõe

No nosso cotidiano convivemos com o dilema de ver a realidade competindo com as expectativas que temos. Digo que é um dilema porque cada pessoa sente que quer saber a “verdade” ao mesmo tempo em que sofre desejando que a realidade seja agradável e conveniente. Cada um de nós guarda, em algum lugar da nossa mente, um conjunto de ilusões que queremos sustentar e com as quais contamos para suportar a vida: a crença no destino, no amor ideal e na liberdade de escolha são algumas dessas ilusões. E assim lutamos durante parte de nossas vidas argumentando que essas coisas fazem sentido, acreditando (querendo acreditar!) que elas explicam tudo o que sentimos e compreendemos.

Se a única coisa que possuíssemos fosse uma capacidade pura e simples de entender a realidade dos fatos, a nossa vida seria insuportável e não encontraríamos prazer em quase nada. É a ausência de um senso de urgência constante que nos permite ter sonhos, fantasias e momentos de satisfação.

A realidade, contudo, acaba se impondo em algum momento da existência1. O que nos faz acordar — tendo uma revelação da fatalidade da existência e da ausência de sentido de quase tudo — é simplesmente o processo de estar vivo e pensando. É difícil se enganar o tempo todo. E em algum momento perdemos a batalha para nós mesmos, vislumbrando nossos sentimentos e nos reconhecendo como seres imperfeitos e reais. E isso não é, necessariamente, algo terrível, ainda que seja difícil de admitir.

Fotografia de Loreal Prystaj

  1. Por isso os autores do pragmatismo (especialmente Charles Peirce) defendiam a perspectiva do apoio irrestrito à realidade. Se o real é tudo o que nos resta, por que buscar apoio em ideias metafísicas? Não seria apenas perder tempo? 

Marcos Ramon

Marcos Ramon

Professor no Instituto Federal de Brasília, pesquisando ensino, estética e cibercultura. Lattes | ORCID | Arquivo
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