Hegel e o fim da arte

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Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770 - 1831) foi um dos autores mais influentes da estética, especialmente por abordar o tema quando este ainda não era um consenso dentro da filosofia.

Diferentemente de Kant, que nunca saiu de sua cidade natal e escreveu pouquíssimo sobre arte, Hegel era um apaixonado pela arte em geral (poesia, música, teatro etc). Frequentava teatros e concertos e mencionava em suas aulas muitos artistas de sua época, ainda que ignorasse figuras importantes como Beethoven ou Caspar David Friedrich. Essas aulas compõem o que hoje conhecemos como “Cursos de Estética”. Contudo, é importante destacar que não se trata de uma obra produzida por Hegel para publicação. Na verdade, essa obra gigantesca, de mais de 1200 páginas, foi compilada por um estudante de Hegel a partir de cadernos de outros estudantes e manuscritos e anotações redigidas pelo próprio filósofo. Logo, existe uma reflexão pertinente sobre a possível legitimidade desse empreendimento filosófico. Mas a ideia aqui é fazer uma análise breve das ideias apresentadas nesses escritos, pressupondo que eles de fato representassem um esforço de sistematização por parte do filósofo alemão.

Partindo da distinção genérica que apresentei anteriormente, entre Kant e Hegel, um primeiro ponto importante é entender que, enquanto Kant defendia a superioridade da natureza em relação à arte, Hegel adota o caminho oposto. Para este, a arte se coloca como uma forma de superação em relação à natureza. Em contraste também em relação a Platão, que destacava o caráter ilusório e aparente da arte, Hegel defendia que a aparência da arte era real, pois é uma manifestação do sensível, do que as pessoas e as civilizações conseguiram exprimir.

O belo artístico é sempre superior ao belo da natureza porque representa a capacidade humana (que nos foi legada por Deus) de criar. Na linguagem de Hegel, a arte é um dos exemplos de como o espírito pode comunicar sua superioridade. É isso que o faz afirmar o seguinte:

Hegel defende, então, que a arte não tem como objetivo a imitação, negando tanto Platão (que via na imitação um problema) quanto Aristóteles (que acreditava na imitação como possibilidade de enriquecimento do poder criativo). Para Hegel a arte simboliza, desde a antiguidade, a busca pelo sentimento religioso e pela aspiração à sabedoria. A arte nos interessa, portanto, porque nos permite exprimir e conhecer a vida do espírito, que é percebida e sentida por meio das obras de arte.

Ao mencionar aqui o termo espírito cabe esclarecer que, para Hegel, o objetivo da filosofia era “apenas Deus e sua explicação”. Logo, a filosofia é, na sua opinião, uma teologia filosófica. Da mesma forma, todo e qualquer conhecimento só faz sentido na medida em que está embrenhado na tentativa de compreender Deus. Para Hegel, Deus é o espírito absoluto e o mundo é a forma como Deus se manifesta. Logo, tudo o que podemos ver, sentir e perceber é o espírito. O ser humano, portanto, é o ápice do espírito no mundo, pois o que nos define é o fato de que somos autoconscientes; ou seja, dizer que o espírito humano conhece a natureza, é o mesmo que dizer que Deus (presente no espírito humano) conhece a si mesmo.

Assim, a grande arte, como a grande filosofia, são expressões do espírito de Deus ‒ conhecendo a si mesmo por meio das criações humanas, uma extensão de sua própria criação.

A arte, no contexto hegeliano, é uma tentativa de superação da contradição inerente ao mundo: a existência do sensível (do aspecto material da existência) e do espiritual. No entanto, essa tentativa (que teve sua importância) foi superada gradualmente pela religião e pela filosofia. É nesse sentido que Hegel decreta o fim da arte.

Nos primeiros momentos da história humana a arte era a forma pela qual nós tentávamos revelar a verdade, sendo portanto um trabalho essencialmente metafísico. No entanto, afirma Hegel, a espiritualidade atinge o seu apogeu com a filosofia.

Depois da criação de obras incríveis e de artistas sem paralelos, como Sófocles, Dante, Shakespeare etc, a arte enfrenta o problema de perder a seriedade e render-se ao entretenimento. A arte romântica, de acordo com Hegel, era o símbolo disso, representando a decadência da arte como forma ultrapassada de autoconhecimento do espírito. Como afirmou o filósofo:

Para Hegel, os dias felizes da arte, sua época de ouro, tinham passado. A arte, como qualquer forma de conhecimento, deveria, segundo ele, exprimir o Absoluto (contribuir para o conhecimento de Deus). No entanto, alguns fatores contribuíram para o deslocamento da sua importância:

  • A religião e a filosofia passaram a fazer isso (o conhecimento do Absoluto) com mais competência;
  • As condições sociais do mundo moderno (contexto político e econômico, diversificação das relações de trabalho, mecanização das tarefas etc) prejudicaram a experiência com a arte.

Por isso, a conclusão a que se chega é que arte, por mais que possa continuar existindo (afinal, ainda existem artistas e ainda existem obras de arte), não terá mais sua função plena sendo exercida. Por isso, “a arte permanece para nós como uma coisa do passado”.

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