A verdadeira história

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Lendo um texto sobre o que de fato teria acontecido na noite em que Van Gogh cortou fora a própria orelha, fiquei pensando em como é frágil a própria noção de história que temos.

Antes, sobre Van Gogh: eu não sabia, mas existem dúvidas sobre ele ter cortado a orelha toda ou apenas o lóbulo. Mais questionamentos ocorrem também no que se refere aos motivos para um ato tão brutal. Hoje Van Gogh é um dos artistas mais conhecidos do mundo, mas enquanto estava vivo sua obra não lhe rendeu reconhecimento e, justamente por isso, dados biográficos precisos são escassos. Daí o tema que apontei no início, sobre a fragilidade da nossa noção de história.

Costumamos associar as pesquisas sobre os fatos ocorridos como verdades evidentes. Claro, quanto mais nos afastamos na direção do passado, mais dificuldades existem para determinar o que aconteceu, quando e como cada coisa se deu. Ainda assim, existe uma confiança — se não quisermos chamar de presunção — que faz com que toda e qualquer descoberta com o mínimo de sustentação logo angarie pessoas que as confirmem. Junte algumas evidências (que podem ser uma carta, gravuras, notícias de jornal etc.) e a habilidade daquele que decide nos contar a história e logo temos um quadro quase completo de como as coisas eram naquele momento específico, uma descrição incrivelmente detalhada do que provavelmente aconteceu. Eu sei que a maior parte dos historiadores não são ingênuos a esse ponto e que o trabalho de quem vê a história com responsabilidade é menos um processo de adivinhação e mais uma tentativa de estabelecer um diálogo entre o presente e o passado. Mas entre o que temos agora e o que já passou, é fato que a maior parte de nós tem um encanto justamente por aquilo que se perdeu. E é assim que histórias mais empolgantes do que a realidade poderia ser acabam ganhando notoriedade e assumindo ares de verdades incontestáveis.

Hoje, como nossos dados certamente sobreviverão a nós por mais tempo do que provavelmente gostaríamos, até mesmo esse gosto pela invenção se perde. Aristóteles escreveu que a poesia é mais filosófica do que a história. Só não considerou que a poesia pode estar em tudo, até mesmo naqueles textos que vivem da presunção de que é possível alcançar a verdade total.

Autorretrato com a Orelha Enfaixada (1889), de Van Gogh

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